ÀG.’. D.’. G.’.A.’.D.’.U.’.
Gnose, o caminho do esclarecimento
Neste trabalho, pretendo trazer a lume um dos
aspectos mais relevantes sobre a essência da palavra Gnose e seu aplicativo
acepcional e originário, e a partir disso, elencar a sua relação com uma das
doutrinas éticas mais importantes da historia humana, que foi alvo de querela
para a Igreja Cristã nos primeiros séculos e que por conseguinte originou um
dos mais conhecidos Concílios da história da Igreja, como resposta imediata ao
seu crescimento e como meio de suplantar e apagar tal conhecimento e doutrina dos anais da
historia humana.
Conforme encontramos na página 67, do
Ritual de Companheiro, a palavra Gnose nos é apresentado no sentido de
conhecimento sobre as causas ou origens das coisas, temos:
“[...]É o conjunto de
Noções comuns aos iniciados que, a força de aprofundar, acabam por se encontrar
na mesma compreensão da causa das coisas”( RITUAL DE COMPANHEIRO,2012 )
É notório que a aquisição de tal
conhecimento, é fruto de uma vontade de aprofundamento, pois a expressão
“força” é aqui entendida como vontade firme
resoluta na busca do conhecimento. Porém, é importante salientar que o termo
Gnose aqui analisado não tem relação com o tipo de conhecimento científico que
visa a aplicação de teorias e técnicas para dominação, exploração, manipulação
e cultivo da Natureza em favor do homem. O sentido da palavra Gnose nesse
contexto, está remetendo a filosofia Gnóstica, arquirrival do cristianismo, nos
primeiro séculos depois de Cristo.
Antes de discorrer de forma breve, sobre a
querela entre Gnosticismo e Cristianismo, devo expor de modo sintético, os
fundamentos de tal doutrina e sua importância dentro ponto de vista ético, moral
e cultural. Diferentemente da aplicação trivial do termo Gnose, convém-nos
atentarmos detidamente em sua tradução mais originária, a versão equivalente da
palavra conhecimento, do latim scientia, que
originalmente se refere a um tipo especial de conhecimento cujo sentido não
está fatalmente atado a preocupação moderna de emprego prático, no que tange a
fazer-se útil em termos de aplicações técnicas voltadas as demandas matérias de
nossa atual sociedade.
Gnose, é um conhecimento cujo objetivo é
harmonizar o interior e o exterior, anulando a dualidade entre espírito e
matéria, mundo subjetivo e mundo objetivo, por meio de um esclarecimento
evolutivo da consciência humana. A aquisição de tal esclarecimento é de
natureza ascética e tem por finalidade o retorno do homem a si mesmo, a sua
fonte originária, o seu Mestre Interior. A fonte primária da emanação de da
doutrina gnóstica é o conhecimento do próprio homem durante toda a sua história
de existência, suas experiências adquiridas e apropriadas como verdadeiros
feixes de iluminação indispensáveis ao desenvolvimento espiritual da
humanidade. A natureza mesma da Gnose a reunir valores espirituais e
congrega-los como verdadeiros tesouros e fonte de benefícios humanos, como a
felicidade por exemplo. O principal
difusor de tal doutrina de caráter sincretista foi com toda certeza o
Gnosticismo.
Antes de adentramos na essência da
filosofia gnóstica, convém-nos esclarecer a diferença entre gnosticismo e
agnosticismo. Agnosticismo, como a própria palavra parece revelar; significa
incognoscível, incompreensível, o prefixo “A”,
que antecede a palavra gnosticismo, já nos dá pistas de que o termo agnosticismo
é na verdade o contrário do termo gnose.
O agnosticismo consiste na afirmação da
incapacidade humana de compreender Deus como também de defini-lo, seja através
da filosofia, da linguagem, da ciência, da arte, etc. A doutrina agnóstica se
divide normalmente em três correntes: o agnosticismo teísta, o ateísta e o
deísta.
O agnóstico teísta afirma positivamente a
existência de um ser superior, uma energia originadora do Universo, um
princípio criador. O agnóstico ateísta nega a existência de um principio
criador, de uma força poderosa e pessoal, um ente espiritual criador de todas
as coisas, no entanto o agnóstico deísta compreende-se como um ente divino, que
assim como deus está conectado a natureza, em harmonia e partilha da natureza
divina, da alma universal, ele se compreende como uma manifestação do próprio
deus.
Retornando ao ponto fulcral de nosso
trabalho, comecemos pelos pressupostos basilares do Gnosticismo, ou da doutrina
gnóstica.
O ponto de partida para a revelação da
verdade portanto a compreensão de si e do mundo para o gnóstico implica em três
pilares ou pontos de apoio:
O
primeiro é o Nascimento, que consiste na quebra radical da dualidade entre o
Masculino e o Feminino que se dá através da transmutação de nossas energias
vitais, resgatando o Sagrado presentificado através da união entre homem e
mulher, uma reverencia a “jóia seminal”, o Logos Divino-Humano, gerador da
Criação.
O segundo é a Morte, que consiste em
compreender a morte como desprendimento total da matéria, liberdade absoluta.
Nesse sentido, a Morte é a fonte do transcendente, o canal de aperfeiçoamento pleno
dos espíritos humanos e sua aquisição de poder sobre as imperfeições do mundo
material.
O terceiro é o Sacrifício, que consiste em
uma adesão absoluta ao sacrifício pessoal em favor da Humanidade, a erradicação
do egoísmo, a Chave da felicidade, a Gnose, em outras palavras: um conhecimento
supremo revelado ao homem ainda em vida, através do novo despertar, o
Nascimento que brota de seu interior e em seguida o leva a morte, que
simbolicamente representa o domínio sobre as paixões e a superação dos males do
mundo material, para que por fim, o homem possa torna-se em um ser divino, um
ser iluminado pelo conhecimento de si mesmo e do Universo de Deus, encontrando
a harmonia perfeita entre o Criador supremo e o próprio ser-humano enquanto
criatura de Deus, e a natureza, as coisas criadas que englobam todo o mundo
material.
Apesar de parecer um ensinamento pouco
conhecido, o Gnosticismo foi nos primeiro Séculos depois de Cristo, a principal
e mais popular doutrina cristã difundida no Império Romano. Se arrefecimento se
deu através de um plano político em executado pelo Imperador Constantino, que
pragmaticamente adotou o cristianismo institucional como religião oficial no
intuito de favorecer a manutenção e consolidação de seu poder.
Certamente o gnosticismo não favorecia o
poder politico por ser ele uma filosofia da transcendência, voltada para a
ética humana e sem pretensões políticas, pois não trazia em seu bojo
doutrinário a preconização de um Reino de Deus, com uma elite sacerdotal como
mediadores desses reino, exercido em uma primeira instancia aqui na terra, como
foi o caso do Cristianismo Oficial, conhecido como a religião Católica,
que com este viés de militância
política, conseguiu se perpetuar como
religião até os dias de hoje.
A moção político-pragmática de Constantino
não conseguiu vencer a doutrina gnóstica, e foi preciso que o Imperador convocasse
um concílio no ano de 325 depois de Cristo, o Concílio de Nicéia, ali naquele
Concílio o gnosticismo seria, oficial e ideologicamente declarado como doutrina
herética e decretada a morte de seus seguidores, bem como a queima de todos os
seus livros, que por deliberação do Concílio de Nicéia, foram considerados
livros apócrifos.
É interessante compreender o motivo pelo
qual o cristianismo atual conseguiu frear o crescimento do gnosticismo, entre
os principais motivos, estaria a questão da visão de Cristo como um ser Divino,
um messias político que entregara seu reino ao Sacerdócio Romano prometendo
voltar um dia. Disto pode-se concluir que o motivo foi essencialmente político,
o descarte do gnosticismo se deu pelo fato de que era um movimento filosófico
cristão e não algo que pudesse se institucionalizar e aliar-se ao poder do
Império favorecendo o controle das massas.
No gnosticismo, nunca houve espaço para o
fortalecimento do poder em suas doutrinas -pois ao invés de pregar um homem de
natureza caída, condenado ao inferno e à espera de um salvador- tendo em vista
que o cerne de sua doutrina é fortalecer o homem gerando nele uma consciência
autônoma de senhor e salvador de si mesmo, mediante o desenvolvimento de suas
potencialidades e virtudes, que o conduzem em direção ao Despertar do que há de
mais divino no humano em nós.
Mas felizmente, graças a Divina
providencia, apesar de toda perseguição e obstrução desenfreada contra o
gnosticismo ainda podemos encontrar nos dias de hoje, suas literaturas, como o
Evangelho de Tomé e o Evangelho de Maria Madalena entre tantas outras. Ainda
também, conseguimos encontrar os ensinamentos basilares do gnosticismo
presentes em diversas religiões, entre elas gostaria de destacar o Espiritismo
e no que concerne a Ordens Iniciáticas destaco a própria Maçonaria, guardiã
fiel da doutrina e sabedoria gnóstica através dos séculos.
O esclarecimento pregado pelo gnosticismo é
fomentado pela filosofia maçônica, que tem por objetivo libertar o homem dos
grilhões da profanidade, elevando sua mente e preparando seu espirito para a
revelação ou ‘gnosis’ das verdades sagradas que remetem e integram o ser do homem
a Deus e a natureza, em consonância com a Antiga Advertência, apreciada
também pelo Sábio Sócrates:
"Te
advirto, quem quer que sejas,
Oh, tú!
Que desejas sondar os Mistérios da Natureza.
Como esperas encontrar outras
excelências,
Se ignoras as de tua própria casa?
Em ti, está oculto o tesouro dos
tesouros.
Oh, homem! Conhece a Ti mesmo
E conhecerás o Universo e os
Deuses".
Will Jackson Santos de Oliveira, COMP.’. M.’. Cad.
3.818 da
A.’.R.’.L.’.S.’.
Eliezer Sá Peixoto Nº29 Oriente
de Rio Largo/Al., jurisdicionada a
Mui e Respeitável Grande Loja do Estado de Alagoas - GLOMEAL)
Referências:
http://ensinadorcristao.blogspot.com.br/2009/07/o-que-e-o-gnosticismo.html
http://www.cursosdemagia.com.br/concilio.htm
http://www.gnose.org.br/os_gnosticos_na_historia/
Introdução à Filosofia da Religião,
Trad. Adail Ubirajara Sobral, Maria Stela Gonçalves. São Paulo, Edições Loyola,
1996, p. 20.
Ritual de Companheiro – Rito Escocês Antigo e Aceito,
2012. p.59. Acessado em:
24/02/2017
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