quinta-feira, 25 de maio de 2017

Gnose, o caminho do esclarecimento


ÀG.’. D.’. G.’.A.’.D.’.U.’.

Gnose, o caminho do esclarecimento

  
 Neste trabalho, pretendo trazer a lume um dos aspectos mais relevantes sobre a essência da palavra Gnose e seu aplicativo acepcional e originário, e a partir disso, elencar a sua relação com uma das doutrinas éticas mais importantes da historia humana, que foi alvo de querela para a Igreja Cristã nos primeiros séculos e que por conseguinte originou um dos mais conhecidos Concílios da história da Igreja, como resposta imediata ao seu crescimento e como meio de suplantar e apagar  tal conhecimento e doutrina dos anais da historia humana.
    Conforme encontramos na página 67, do Ritual de Companheiro, a palavra Gnose nos é apresentado no sentido de conhecimento sobre as causas ou origens das coisas, temos:

“[...]É o conjunto de Noções comuns aos iniciados que, a força de aprofundar, acabam por se encontrar na mesma compreensão da causa das coisas”( RITUAL DE COMPANHEIRO,2012 )

    É notório que a aquisição de tal conhecimento, é fruto de uma vontade de aprofundamento, pois a expressão “força”  é aqui entendida como vontade firme resoluta na busca do conhecimento. Porém, é importante salientar que o termo Gnose aqui analisado não tem relação com o tipo de conhecimento científico que visa a aplicação de teorias e técnicas para dominação, exploração, manipulação e cultivo da Natureza em favor do homem. O sentido da palavra Gnose nesse contexto, está remetendo a filosofia Gnóstica, arquirrival do cristianismo, nos primeiro séculos depois de Cristo.
    Antes de discorrer de forma breve, sobre a querela entre Gnosticismo e Cristianismo, devo expor de modo sintético, os fundamentos de tal doutrina e sua importância dentro ponto de vista ético, moral e cultural. Diferentemente da aplicação trivial do termo Gnose, convém-nos atentarmos detidamente em sua tradução mais originária, a versão equivalente da palavra conhecimento, do latim scientia, que originalmente se refere a um tipo especial de conhecimento cujo sentido não está fatalmente atado a preocupação moderna de emprego prático, no que tange a fazer-se útil em termos de aplicações técnicas voltadas as demandas matérias de nossa atual sociedade.
    Gnose, é um conhecimento cujo objetivo é harmonizar o interior e o exterior, anulando a dualidade entre espírito e matéria, mundo subjetivo e mundo objetivo, por meio de um esclarecimento evolutivo da consciência humana. A aquisição de tal esclarecimento é de natureza ascética e tem por finalidade o retorno do homem a si mesmo, a sua fonte originária, o seu Mestre Interior. A fonte primária da emanação de da doutrina gnóstica é o conhecimento do próprio homem durante toda a sua história de existência, suas experiências adquiridas e apropriadas como verdadeiros feixes de iluminação indispensáveis ao desenvolvimento espiritual da humanidade. A natureza mesma da Gnose a reunir valores espirituais e congrega-los como verdadeiros tesouros e fonte de benefícios humanos, como a felicidade por exemplo.  O principal difusor de tal doutrina de caráter sincretista foi com toda certeza o Gnosticismo.
    Antes de adentramos na essência da filosofia gnóstica, convém-nos esclarecer a diferença entre gnosticismo e agnosticismo. Agnosticismo, como a própria palavra parece revelar; significa incognoscível, incompreensível, o prefixo “A”, que antecede a palavra gnosticismo, já nos dá pistas de que o termo agnosticismo é na verdade o contrário do termo gnose.
    O agnosticismo consiste na afirmação da incapacidade humana de compreender Deus como também de defini-lo, seja através da filosofia, da linguagem, da ciência, da arte, etc. A doutrina agnóstica se divide normalmente em três correntes: o agnosticismo teísta, o ateísta e o deísta.
     O agnóstico teísta afirma positivamente a existência de um ser superior, uma energia originadora do Universo, um princípio criador. O agnóstico ateísta nega a existência de um principio criador, de uma força poderosa e pessoal, um ente espiritual criador de todas as coisas, no entanto o agnóstico deísta compreende-se como um ente divino, que assim como deus está conectado a natureza, em harmonia e partilha da natureza divina, da alma universal, ele se compreende como uma manifestação do próprio deus.
    Retornando ao ponto fulcral de nosso trabalho, comecemos pelos pressupostos basilares do Gnosticismo, ou da doutrina gnóstica.
    O ponto de partida para a revelação da verdade portanto a compreensão de si e do mundo para o gnóstico implica em três pilares ou pontos de apoio:

    O primeiro é o Nascimento, que consiste na quebra radical da dualidade entre o Masculino e o Feminino que se dá através da transmutação de nossas energias vitais, resgatando o Sagrado presentificado através da união entre homem e mulher, uma reverencia a “jóia seminal”, o Logos Divino-Humano, gerador da Criação.
    O segundo é a Morte, que consiste em compreender a morte como desprendimento total da matéria, liberdade absoluta. Nesse sentido, a Morte é a fonte do transcendente, o canal de aperfeiçoamento pleno dos espíritos humanos e sua aquisição de poder sobre as imperfeições do mundo material.
    O terceiro é o Sacrifício, que consiste em uma adesão absoluta ao sacrifício pessoal em favor da Humanidade, a erradicação do egoísmo, a Chave da felicidade, a Gnose, em outras palavras: um conhecimento supremo revelado ao homem ainda em vida, através do novo despertar, o Nascimento que brota de seu interior e em seguida o leva a morte, que simbolicamente representa o domínio sobre as paixões e a superação dos males do mundo material, para que por fim, o homem possa torna-se em um ser divino, um ser iluminado pelo conhecimento de si mesmo e do Universo de Deus, encontrando a harmonia perfeita entre o Criador supremo e o próprio ser-humano enquanto criatura de Deus, e a natureza, as coisas criadas que englobam todo o mundo material.
    Apesar de parecer um ensinamento pouco conhecido, o Gnosticismo foi nos primeiro Séculos depois de Cristo, a principal e mais popular doutrina cristã difundida no Império Romano. Se arrefecimento se deu através de um plano político em executado pelo Imperador Constantino, que pragmaticamente adotou o cristianismo institucional como religião oficial no intuito de favorecer a manutenção e consolidação de seu poder.
    Certamente o gnosticismo não favorecia o poder politico por ser ele uma filosofia da transcendência, voltada para a ética humana e sem pretensões políticas, pois não trazia em seu bojo doutrinário a preconização de um Reino de Deus, com uma elite sacerdotal como mediadores desses reino, exercido em uma primeira instancia aqui na terra, como foi o caso do Cristianismo Oficial, conhecido como a religião Católica, que  com este viés de militância política, conseguiu se perpetuar  como religião até os dias de hoje.
   A moção político-pragmática de Constantino não conseguiu vencer a doutrina gnóstica, e foi preciso que o Imperador convocasse um concílio no ano de 325 depois de Cristo, o Concílio de Nicéia, ali naquele Concílio o gnosticismo seria, oficial e ideologicamente declarado como doutrina herética e decretada a morte de seus seguidores, bem como a queima de todos os seus livros, que por deliberação do Concílio de Nicéia, foram considerados livros apócrifos.
    É interessante compreender o motivo pelo qual o cristianismo atual conseguiu frear o crescimento do gnosticismo, entre os principais motivos, estaria a questão da visão de Cristo como um ser Divino, um messias político que entregara seu reino ao Sacerdócio Romano prometendo voltar um dia. Disto pode-se concluir que o motivo foi essencialmente político, o descarte do gnosticismo se deu pelo fato de que era um movimento filosófico cristão e não algo que pudesse se institucionalizar e aliar-se ao poder do Império favorecendo o controle das massas.
    No gnosticismo, nunca houve espaço para o fortalecimento do poder em suas doutrinas -pois ao invés de pregar um homem de natureza caída, condenado ao inferno e à espera de um salvador- tendo em vista que o cerne de sua doutrina é fortalecer o homem gerando nele uma consciência autônoma de senhor e salvador de si mesmo, mediante o desenvolvimento de suas potencialidades e virtudes, que o conduzem em direção ao Despertar do que há de mais divino no humano em nós.
    Mas felizmente, graças a Divina providencia, apesar de toda perseguição e obstrução desenfreada contra o gnosticismo ainda podemos encontrar nos dias de hoje, suas literaturas, como o Evangelho de Tomé e o Evangelho de Maria Madalena entre tantas outras. Ainda também, conseguimos encontrar os ensinamentos basilares do gnosticismo presentes em diversas religiões, entre elas gostaria de destacar o Espiritismo e no que concerne a Ordens Iniciáticas destaco a própria Maçonaria, guardiã fiel da doutrina e sabedoria gnóstica através dos séculos.
 O esclarecimento pregado pelo gnosticismo é fomentado pela filosofia maçônica, que tem por objetivo libertar o homem dos grilhões da profanidade, elevando sua mente e preparando seu espirito para a revelação ou ‘gnosis’ das verdades sagradas que remetem e integram o ser do homem a Deus e a natureza, em consonância com a Antiga Advertência, apreciada também pelo Sábio Sócrates:
"Te advirto, quem quer que sejas,
Oh, tú! Que desejas sondar os Mistérios da Natureza.
Como esperas encontrar outras excelências,
Se ignoras as de tua própria casa?
Em ti, está oculto o tesouro dos tesouros.
Oh, homem! Conhece a Ti mesmo
E conhecerás o Universo e os Deuses".






Will Jackson Santos de Oliveira, COMP.’. M.’. Cad. 3.818 da
A.’.R.’.L.’.S.’.  Eliezer Sá Peixoto Nº29  Oriente de Rio Largo/Al., jurisdicionada a Mui e Respeitável Grande Loja do Estado de Alagoas - GLOMEAL)


Referências:

http://ensinadorcristao.blogspot.com.br/2009/07/o-que-e-o-gnosticismo.html
http://www.cursosdemagia.com.br/concilio.htm
http://www.gnose.org.br/os_gnosticos_na_historia/
Introdução à Filosofia da Religião, Trad. Adail Ubirajara Sobral, Maria Stela Gonçalves. São Paulo, Edições Loyola, 1996, p. 20.
Ritual de Companheiro – Rito Escocês Antigo e Aceito, 2012. p.59. Acessado em: 24/02/2017


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